Eu lembro da primeira vez que te vi, com os olhos escondidos entre um abraço que não era o meu. Não lembro da sua roupa, nem do seu cheiro, nem do que eu fazia ali naquele momento, eu lembro de você.
E eu não te guardei, porque eu tinha muita vida pra viver e você era apenas um rapaz com um olhar distante numa companhia conhecida, esperando uma pizza.
E então eu te vi de novo, e guardei seu cheiro, porque dessa vez seu cheiro era meu, e seus olhos eram meus, e horas mais tarde sua boca também seria minha porque não havia o que esperar, nós estávamos juntos, meus cabelos sendo levados pelo vento e o abraço tímido de um primeiro contato.
Não tão juntos e não tão perto.
Dois corpos numa noite imprevisível que só acabou na manhã seguinte quando a gente sabia o que fazer, mas não o que falar.
Silêncio, suor e medo. De repente um relógio que acusava a hora de voltar pra casa.
E eu fui, e você foi comigo.
Cabelos ao vento, abraços tímidos de um segundo contato, e seu cheiro de ontem. Cheiro de comer, daqueles de se sentir de olhos fechados.
Mas foi de olhos bem abertos que eu te olhei. Você estava especialmente lindo, numa noite especialmente simples de fevereiro ou março, quando o cheiro de alguma coisa da cozinha passava pra copa, que passava pra sala, que chegava na rua, mas que nenhum cheiro seria mais forte do que o cheiro daquele momento em que eu estava me apaixonando por você.
Mãos, olhares e beijos.
Foi a primeira vez, e teve a segunda, a terceira, e uma série de vezes que eu não precisei que você estivesse me vendo, nem que você estivesse perto, porque eu te guardei. E te guardei no meu olhar porque ainda existe muita vida pra viver e muitas horas pra eu terminar de me apaixonar por você.
Boca de comer, daquelas de beijar de olhos grudados.